Drogas e adolescência
Amadeu Roselli Cruz
Artigo publicado na revista Ética e Cidadania, por ocasião do Seminário Ibero-Americano de Adolescência, IV Congresso da Associação Mineira de Adolescência e IV Simpósio Mineiro de Ginecologia Infanto-Puberal, de agosto de 2000, em Belo Horizonte (p.203-208)
O consumo de drogas ilícitas (maconha e cocaína, entre outras), o de drogas lícitas (álcool e fumo), bem como o de drogas regulamentadas (medicamentos de ação psicofarmacológica) constituem um fenômeno social coletivo designado como – abuso de drogas.
O abuso de drogas de ação psicoativas se confunde com a história do próprio homem. Aquele homem pré-histórico, nômade, caçador de presas pequenas e coletor da natureza. Na busca de alimentos vegetais coletou e comeu plantas que tinham efeitos depressores e analgésicos, que faziam suas dores desaparecer. Como a planta papoula, de onde se extrai o ópio, que processado farmacologicamente pode se transformar em analgésicos como a morfina, codeína, meperidina e ainda em heroína.
Em outra oportunidade, o homem pré-histórico comeu plantas que lhe tiraram o sono, deram-lhe maior disposição física e sensação de poder e até mesmo agressividade. Essa planta, de efeito estimulante, poderia ser do grupo do café, erva mate, chá preto, ou da erythoroxylon coca, de onde se extrai a cocaína e o crack.
Ainda buscando alimentação na natureza, ingeriu algumas plantas que lhe deram uma sensação diferente, confundindo a realidade com a fantasia e o sonho. Esse efeito, classificado depois como alucinógeno, obtido com plantas como a maconha, e outras com a presença de componentes anticolinérgicos (como alguns chá e cogumelos), foi incorporado aos seus ritos e magias para pajelança de indivíduos doentes e persiste até hoje em tribos indígenas do mundo todo.
O álcool e o fumo, também considerado drogas, eram igualmente conhecido dos homens pré-históricos. Frutas amassadas, que eram guardadas em buracos na rocha, em frente às cavernas, fermentavam quando a água da chuva ali empossava, insetos pousam, ou o vento trazia lêvedos e enzimas que, sob a luz de um sol quente, catalisavam a reação bioquímica da fermentação. O produto final da fermentação é o álcool.
Com o tempo, o homem descobriu que frutas como a uva e a cana de açúcar, forneciam álcool de maior concentração alcoólica. Quando o homem descobriu o fogo e aprendeu a fazê-lo, passou a enrolar folhas vegetais secas e a colocar fogo numa das pontas, soprando do outro lado para fazer fumaça e espantar insetos (como pernilongos) que atrapalhavam seu sono na caverna durante a noite. Quando, em vez de soprar, o homem primitivo passou a chupar aquela folha vegetal enrolada com fogo numa das pontas, tragando a fumaça, ele estava descobrindo o cigarro.
Vemos assim, que o fenômeno social coletivo, ou individual, do abuso de drogas não é uma coisa nova. É tão antigo como o homem. Da pré-história para nossos dias, no ano 2000, pouca coisa mudou. As drogas são quase as mesmas. Mas sua potência aumentou muito. A indústria da química fina e a indústria farmacêutica, aprimoram os efeitos depressores estimulantes ou alucinógenos de seus produtos. A indústria de bebidas pode fabricar destilados como a “tequila”, com concentração alcoólica de até 75%. E cigarros com alto teor de nicotina, e tratados com amônia, para aumentar a sua absorção são muito mais fortes e concentrados do que as bebidas e cigarros de séculos atrás. Plantações de maconha com melhoramento genético, adubação e irrigação já permitem sua colheita com concentrações de tetrahidrocanabinois em redor de até 10%, quando a medida é de concentrações de 2%.
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